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Sob forte influência

Encaro a sua imagem nesta tela como se não houvesse nada além de ti

Encaro a sua imagem nesta tela como se não houvesse nada além de ti. Encaro a sua cara na foto até que cada traço esteja tão bem delineado e tão bem delimitado que evapore. Pinço o seu rosto num movimento agressivo e estrangeiro de dedos - zoom. Encaro o que poderia ter sido a sua cara até que se concretize o meu desejo secreto de desmembrá-la. Desmantela-se, sob este pretexto, a sua cara. Inerte e boquiaberto, pesa em minha carne este recém-nascido desespero ao perder a sua forma. A partir de hoje, comporto um sentimento vil em meu corpo.


Que fazer com o nada nas pontas dos meus dedos? Reinventar uma anatomia a partir da sua carne, dos seus pelos? Recriar a sua forma original? Como se fosse possível, ainda, algum tipo de manutenção. Cada impulso parece, cada vez mais, muito bem articulado - dentro de cada movimento, inúmeros motivos cristalizados. Afinal, a arte da respiração nunca foi assim tão intuitiva.


Amplio cada uma dessas novas partes: tudo são detalhes e não conheço mais nada sobre nenhum. Apenas suposições. Como um corpo que regressa à forma primária do feto - descartá-lo? Afobo-me ao constatar que nada sei do não saber: separo suas moléculas - alcanço os átomos - impeço a circulação dos elétrons - enfio o indicador nos seus prótons - meto o dedo, impulsivo, na ferida. Desarticulo o seu núcleo atômico; me empenho numa explosão, os passos para um conflito: o tutorial do fim do mundo. Seguir um fio. Perder o fio. Criar um fio. Tecer a malha. Engoli a sua imagem?


Você: sussurro o vocativo com milhares de ressalvas. Você: porque ainda é muito cedo arriscar perder os vocativos. Então, sim, você, com sua força de comandantes ordenando meu movimento agressivo de dedos. Finalmente te reconheço inominável. Tento articular sílabas perdidas entre a boca; descuidado, mato-as todas. Não há mais vocabulário que comporte: nunca houve - mas quando houve aquele um outro vocabulário, eu não o sabia - assim como você - nunca o soubemos. Sabíamos apenas o peso.


Num ensaio involuntário, regresso às ruínas léxicas: balbucio. Uma vontade assassina de fingir esquecê-las, as nanopartículas entre os meus dedos. Scrolling, os inícios e os fins simulados. Sua fala, sua cara, minha tara: todas elas mortas nessa tela. Articulo metafisicamente rotas alternativas. Tento pôr em ação o plano imperceptivelmente perfeito da ficção. Desisto: articulo a ideia da fuga. Exasperado, procuro instrumentos que as comportem - as partículas e as ruínas. Elas demandam um novo sistema métrico, um novo sistema léxico - me desinventam para que eu possa inventar. Elementos tão imensuráveis que parece sistematicamente impossível sequer chegar perto de se conceber algo minimante concreto. Nas medidas do impossível, eu desinvento o seu esquecimento. Entre balbucios e rascunhos, colagens e barulhos: urge em meus dedos a sua forma: você. Em movimentos de pinça deliberadamente calculados, num esforço ambidestro, misturo todos os núcleos, causando explosões atômicas de propósito.


Nada se destrói: nada mais existe. Que é que há, então, em minhas mãos? Que é que pode ser esse coração vermelho pulsando fraco na ponta do dedo? A morte ou a salvação? Que é que pode vir do esquecimento? Que é que pode vir da desarticulação do silêncio? Meu movimento é um simulacro. Tudo nasce dessa coisa que já nem sei mais - e que nenhum esforço é capaz de me levar algumas linhas atrás para que eu possa me recordar. Como se pudéssemos não termos o sido - jamais.


Fadado à falha, intuitivamente te remonto. Você, monstro remendado, encara-me com o temor afetado de quem é inventado. As tentativas contemporâneas da narrativa do secreto. Os meus segredos abjetos em jogo são também seus: não me venha com truques, charadas ou jogos de adivinhação. Tratamentos irreversíveis. Te perder para sempre? Esta encruzilhada que leva a apenas um caminho:


O desejo como imperativo; mãos tão autoritárias; a destruição como imperativo. Um caminho apenas. Tento miseravelmente recobrar algum tipo de sentido, como que num estado de espírito poético, alguma solução catártica e imediata. Decido contar toda a verdade. Como que rasgasse a sua própria pele, meu saber assassino. Toda a verdade pressupõe toda a mentira: ela, a marca fundadora. Ter dado dicas diamânticas e outras dinamíticas - terem sido todas elas grandes fraudes.


O amanhã ter sido arbitrariamente abolido. Sou parido à sombra da decisão da sua partida. O buraco que se abre em seu peito ao descobrir que não valho nada: desconfiai das descrições e das discrições; levamos um susto - ainda estamos aqui. Eu repito, retomo todas as ruínas, lambo desesperadamente tudo que já foi destruído - eu não lembro! - eu insisto. Efetuo a queda - quantas vezes for preciso. Cedo pelas minhas próprias vias: fujo do meu tato ávido pela fissura, desestabilizo a minha palavra, bloqueio cada investida, não caio pelo meu plano, eu sacaneio com as minhas ideias: não serei extorquido! Nino, nicotínico, a narrativa noturna do nana-nina-não.


Encaro a minha pele como se não houvesse nada além de ti, até que cada traço esteja tão bem delineado e tão bem delimitado que evapore. Belisco-a, num movimento cristalizado, agressivo. Procuro algum pretexto, algum motivo - que essa língua não nasceu passiva, e abrem-se os poros dessa pele esquecida. Tiraremos os metais pesados de circulação - rios e corrente sanguínea. É urgente: preciso escrever um bilhete - dessa vez hesitarei - estou apaixonado pela marca preterida. Como se pudesse haver algo por trás da trama:


Infiltro-me insético em meus instintos intestínicos: interrompo intermitente o esforço ao texto - um concerto de peidos. Faço, senão pouco, algum esforço: os momentos intempestivos do recordar o sonho: tento cutucar o cadáver esquecido sob o esqueleto da casa: efetuo a fuga por vias subterrâneas. Pelo amor de Deus! não me deixe morrer num sussurro entredentes.


Suspendo a pausa e demais decisões por mero e casual instinto. Sou uma presa facílima e ainda estou sob fortíssima influência: descobri um novo tipo de peixe; peguei-o selvagem nas mãos, encarei fundo seus olhos abissais, tudo só para soltá-lo. E cá está você, depositando-me toda a expectativa da resolução. Meu bem, eu não sou nem um pouco resolutiva. Assisto fascinada ao espetáculo da dissolução e quase morro asfixiada com tamanha conjuntura de delicadezas - que todas as matérias têm sido criminalmente densas e todos os planos culminam nUm ato impuro. Enfim, numa operação puramente nostálgica, rigidamente ouso as minhas coisas sobre o que já foi a coisa sua. Nesse mesmo e exato momento estou entre aquele corriqueiro ímpeto:

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João Vitor Pereira, 19, é barbarense, do interior de São Paulo, e ex-estudante de Psicologia da UFSJ. Escreve desde os 13 anos, aproximadamente, e se empenha, nas produções atuais, na contestação de imagens cristalizadas, passando por questões como corporeidade, performance, gênero e afetividade, o que é estranho, o que é o outro - ainda mais quando está dentro do "eu" -, o que é outro na palavra e o que pode ser "eu" nela, também

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