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O que a nossa culinária nos diz sobre a resistência negra?

A adaptação da gastronomia afro-brasileira ao sistema de apagamento e sua representação como cultura e identidade do povo negro

COMIDA É RESISTÊNCIA - A gastronomia afro-brasileira sintetiza a identidade e a luta do povo negro. (Foto: Karolina Grabowska/Pexels).

As mulheres de vestidos longos e brancos, com panos enrolados na cabeça e os colares compridos, são parte integrante das cidades no estado baiano. Demorei alguns anos até experimentar o bolinho feito de feijão fradinho. Vatapá e Caruru eram duas coisas que não estavam no meu dia a dia e a presença do camarão nesta diversidade de ingredientes era diferente do que eu estava acostumada. Enquanto aguardava o preparo a uns passos dali, sentada em uma das mesas na pracinha com o meu pai ao lado, não tive tempo de pensar na importância que tudo aquilo trazia dentro do meu prato. E eu não sabia nem por onde começar.


As Baianas do Acarajé são uma materialização da resistência. Durante o período escravista, as escravas de ganho eram conhecidas como as mulheres que prestavam algum serviço na cidade e repassavam grande parte do dinheiro para os senhores de engenho. A comercialização de alimentos era uma das possibilidades de ganho não só para essas mulheres escravizadas, como também para as negras livres. O processo de reurbanização após, em tese, o “fim da escravidão”, tentou impedir que essas atividades fossem excercidas, dificultando esse comércio informal que mantinha a sobrevivência da população negra.


Tombada como patrimônio imaterial, a baiana do acarajé carrega consigo a história de resistência afro-brasileira. Se hoje o acarajé é indispensável no território baiano, é preciso reconhecer que ele é mais do que uma tradição gastronômica do território, mas também a simbologia da luta negra. Vindo da África Ocidental, está estritamente ligado ao Candomblé, sendo oferecido ao orixá Xangô. E é também a representação da religião de matriz africana.


A comunidade negra sempre precisou bolar estratégias de sobrevivência. A sua voz, a sua cultura e a sua identidade sempre estiveram em xeque. E com a culinária não foi diferente. A criatividade presente na cozinha é admirável, as habilidades de improvisação, os novos sabores e as adaptações, são ricas. Mas são também simbologia de um povo que precisou se adaptar, forçadamente, em um sistema de apagamento. A gastronomia afro-brasileira partiu da necessidade de se reinventar através do que estava disponível e ao seu alcance.


A culinária de uma sociedade, e sua relação com a comida, diz muito sobre a sua própria identidade. A simbologia por trás das refeições, o ato de se alimentar como a oportunidade do encontro, às vezes nos serve como um abraço. É a oportunidade de falar de si e da sua origem, sem precisar de muitas palavras. Dentro de cada família, muito possivelmente, uma memória afetiva relacionada com a comida é marca característica do seu encontro com o outro.


Meu pai saiu da Bahia antes dos dezoito anos de idade. Os outros irmãos seguiram o mesmo desfecho e São Paulo virou a nova casa de cada um deles. Cresci com os gritos no meio dos almoços em família: “Tem farinha?”, “Tem aquela pimenta boa, aí?”. Apesar de eu não ter 20% da habilidade que minha avó tem na culinária, as poucas, mas ricas vezes, que estive na sua casa, admirei a forma como a sua presença é marcante na cozinha. As mesmas mãos que a vida toda pegaram pesado nos trabalhos da roça, entregavam uma delicadeza em cada prato, onde eu sinto fortemente seu amor entregue ali, enquanto sentados à mesa, meu pai vira uma dose de cachaça e questiona se ela vai fazer o sarapatel que ele tanto gosta.


Vi, indiretamente, porque não suportaria acompanhar a cena de perto: meu pai e minha avó, juntos, limparem o animal abatido, que Dona Maria, a essa altura, já planeja em voz alta o modo de preparo. Em cada casa que íamos visitar, ainda que o horário do almoço tivesse passado, tínhamos uma mesa farta para recebermos. “Deixa eu esquentar o angu”, “Pegue um prato e se sente”, “Come pelo menos um peixe”, e assim, ouvia os bem-vindos não dito em palavras, mas transparecido pelas mãos de outra senhora, que assim como a minha avó, passava afeto em cada tempero jogado na panela.


Vejo na minha família a sua auto afirmação identitária através da comida. Alimentando-se em corpo e alma, resgatando um pouco da sua cultura, mesmo que a quilômetros de distância, assim como meus ancestrais precisaram fazer. Se conectaram através da culinária e se reinventaram de tantas outras formas para se manterem vivos, em corpo e alma.

1 Comment


Flay Araújo
Flay Araújo
Sep 14, 2021

Culinária é cultura, onde coloca seus sentimentos, sua história através de um prato !


Um ótimo tema ser discutido , parabéns !

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