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Educarte: a quem a educação serve?



Foto: (Reprodução/Geovana Nunes)

"A pergunta é: educar para quê?" ocupou uma parede inteira do Museu da Língua Portuguesa que fica ao lado da Estação da Luz em São Paulo. A provocação feita pelo filósofo é muito interessante e extremamente atual.


Num contexto de discussão sobre escola sem partido e aprovação do homeschooling no Brasil, o filme O Sorriso de Mona Lisa nos possibilita refletir a respeito da educação, da arte e quem se beneficia com o modelo educacional atual.


O longa conta com Julia Roberts no papel da professora de História da Arte, Katherine Watson. A senhorita Watson foi contratada pelo colégio de meninas Wellesley e o calor da Califórnia foi substituído pela vida pacata na pequena cidade no estado de Massachusetts, Estados Unidos. A história se passa na década de cinquenta e também fazem parte do elenco Julia Stiles, como Joan Brandwyn, e Kirsten Dunst como Betty Warren.


O texto vai abordar um assunto sensível. Se você não se sente confortável em ouvir sobre abuso sexual, pode pular o primeiro parágrafo onde eu falo sobre homeschooling no Brasil que seu entendimento não vai ser prejudicado.


“Não desrespeite nossas tradições só porque é subversiva”



O colégio Wellesley é famoso por possuir as mentes mais brilhantes do país. É um colégio tradicional de reputação impecável. A enfermeira Amanda é demitida quando recebem uma denúncia peculiar: ela estava distribuindo contraceptivos para as estudantes. Para o conselho da escola, Amanda é subversiva e progressista, além de estar incentivando a promiscuidade.


O machismo da escola não para por aí. As estudantes têm uma disciplina voltada para a resolução dos problemas do casamento e do marido, como se elas fossem as maiores responsáveis por uma casa funcional. A própria professora, senhorita Abbey, diz-lhes que depois que se graduarem aquela será sua função. Garantir que seu marido consiga uma promoção no escritório.


Parece absurdo e completamente ultrapassado, não é? Não, não é ultrapassado. Ao afirmar com euforia que "menino veste azul, menina veste rosa!" a ex-ministra da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos está reforçando os papéis de gênero. Aparentemente é apenas uma fala inocente, sobre vestes, mas diz muito sobre comportamento. Pois agora, menina se comporta como menina.


E o que será que significa se comportar como uma menina? Para a filósofa italiana Silvia Federicci, o papel da mulher no sistema capitalista é o de reprodução social. Ou seja, é função da mulher cuidar do lar e da educação dos filhos. Sua célebre frase "o que eles chamam de amor chamamos de trabalho não pago" quer dizer que o trabalho doméstico realizado pela dona de casa permite ao marido ter energia para mais um dia na empresa. Segundo os termos da autora, é dessa forma que o sistema garante sua funcionalidade.


Nesse sentido, não é por acaso que Betty afirma: "enquanto nossas mães foram chamadas para a força de trabalho, é nosso dever, não obrigação, retomar nosso lugar no lar. Cuidando dos filhos que carregarão nossas tradições para o futuro". Mas qual seria a diferença entre dever e obrigação? Para o dicionário de português Houaiss, uma das definições de dever é “uma obrigação a que se submete, geralmente regra moral, convenção social ou saber prático”. O que reitera a tese de Federicci. Sinto muito, Betty.


Ao dizer para Katherine "Não desrespeite nossas tradições só porque é subversiva" a senhorita Warren está reafirmando o teor moral dos papéis de gênero. O uso da palavra subversiva é muito interessante também. Porque Katherine, assim como Amanda, são julgadas dessa forma pela diretoria. A subversão, ou seja, a oposição às tradições, à moral, aos bons costumes, é um argumento muito utilizado por regimes ditatoriais para perseguir os opositores. No Brasil, esse era um das justificativas para a tortura e o assassinato de estudantes, jornalistas e artistas da oposição.


Curioso que uma estudante faça o uso de uma palavra tão simbólica, não? E principalmente que o corpo docente faça uso desse discurso. Esse modelo educacional rígido, tradicional e pouco provocativo cai como uma luva com a teoria "foucaultiana" presente no livro Vigiar e Punir: História da Violência nas Prisões.


Na visão de Michel Foucault as prisões são a última cartada para deixar o sujeito na linha. Quando as outras instituições responsáveis por manter um certo padrão de comportamento falham, a prisão entra. Essas instituições seriam a escola, a família e o trabalho.


Ao ensinar as meninas como cruzar as pernas, como ter as qualidades de uma boa esposa, Wellesley está perpetuando um padrão de comportamento. Está ensinando o lugar que a mulher deveria ocupar na sociedade. Seu dever. Sua sina.



Foto: (Reprodução/Arquivo pessoal/Geovana Nunes)

Na obra "O segundo sexo", Simone de Beauvoir vai dizer que "Não se nasce mulher, torna-se". Porque ser mulher é uma construção social. Os papéis de gêneros não são naturais como parecem. Eles são frutos de valores e costumes.


Ao receber o prêmio de “Homem do Ano” pela revista GQ como Gisele Almodovar, sua parte feminina, Silvério Pereira demonstra, mesmo que não tenha sido seu objetivo, que maquiagem, cabelo comprido e vestido não significa ser uma mulher. Durante a premiação ele diz "se eu estou aqui hoje vestido desse jeito, é porque diversos momentos disseram que eu não podia estar assim. É só por isso que o meu lado feminino empodera o meu lado masculino e foi por isso que decidi vir assim". Portanto, não significa que quem performa a feminilidade seja necessariamente mulher e o contrário também é válido.




“Fazendo exatamente o que ela foi treinada para fazer”


Betty Warren é uma estudante modelo: inteligente, aplicada, certinha. É a primeira das amigas a se casar. Ao ver a lavanderia da amiga, Joan diz que ela finalmente conseguiu tudo o que sonhou. O maior dos sonhos. E Betty afirma à amiga que ela também chegará ao seu auge.




Foto: (Reprodução/Youtube/O Sorriso de Mona Lisa)

Não há como falar sobre educação sem citar o maior nome do patrono da pedagogia brasileira é um dos maiores nomes internacionais nesse sentido. Em Pedagogia do Oprimido, Paulo Freire, dentre muitas outras coisas, discute sobre como um modelo de educação que elimina a individualidade do educando e o desumaniza é peça chave na manutenção da sociedade tal como ela está. O opressor retira a liberdade do oprimido, liberdade de traçar seus próprios caminhos da sua própria maneira. Além disso, o oprimido passa a desejar ser o opressor. A agir como ele, porque as ações que o oprimem foram absorvidas por si após tanta violência.


Há uma cena muito marcante no filme, onde Betty descarrega toda a sua frustração em sua amiga Giselle, interpretada por Maggie Gyllenhaal, e representa exatamente a tese "freiriana". Mas por que Betty é assim? Por que ela é o modelo da perfeição dos anos cinquenta? Porque ela é um produto de seu tempo. Ela é fruto da educação de Wellesley e de sua família.


Num cenário onde a família é a primeira etapa na socialização, e no disciplinamento, do sujeito, a pauta do homeschooling no Brasil é problemática. O aspecto mais preocupante quanto a educação em casa é quanto a violência doméstica contra a criança e o adolescente. Um levantamento realizado pelo Globo demonstrou que a maioria dos casos de abuso sexual acontece dentro da própria casa da vítima. A escola, nesse sentido, se torna uma ferramenta de identificar esses ocorridos e zelar pela integridade da criança. O que vai acontecer se os únicos adultos com os quais a criança terá contato frequente forem justamente seus abusadores?


Além disso, existem famílias que não querem que seus filhos tenham contato com ideias fora de sua própria ideologia ou crença. Entrar em contato com teses diferentes do que se acredita é importante para a formação social e intelectual do indivíduo. Não só isso, como também há todas as questões citadas pelos filósofos acima e como o próprio filme demonstra. Outro ponto que vem sido debatido no Brasil nos últimos anos é a “escola sem partido”. O engraçado é que esta é uma proposta de cunho político defendida por pessoas filiadas a partidos. O argumento é que a escola é doutrinadora, subversiva e corrompe os jovens ao os transformar em militantes de esquerda.




Foto: (Reprodução/Youtube/O Sorriso de Mona Lisa)


Em Política e Educação, Paulo Freire vai dizer que não há separação entre às duas coisas. O educador precisa estar politicamente formado para que seja uma passagem entre o educando e o saber. O ato de educar é político. É uma luta para conquistar cidadania e dignidade. Dessa forma, uma proposta de “escola sem partido” é uma tentativa de apagamento das lutas políticas que surgem dentro do ambiente escolar. Ou melhor, é uma tentativa de fazer com que somente um partido tenha voz política dentro das salas de aula e das discussões no recreio. E a quem esse modelo de educação serve?



“Ela está sorrindo. Ela está feliz? Ela parece feliz.”

Mas, afinal, qual o papel do educador?


A senhorita Watson é recebida com muita relutância pelas estudantes que a julgam pretensiosa. Para as meninas do colégio Wellesley, Katherine não entende nada de arte, nem sabe dizer o que é ou não arte. Porque a arte é cheia de regras e beleza.


Na aula sobre o pintor Vincent Van Gogh, a professora diz: "Ele pintava o que sentia. Não o que via” e é isso que ela ensina ao espectador e as suas educandas. Que a arte é para provocar, fazer sentir. É para incomodar, te tirar da sua zona de conforto. Arte não é beleza. Mas o filme não fala só sobre arte. Ele fala sobre educação.


Quando Katherine Watson mostra propagandas de donas de casa dos anos 50 e diz que as moças estão “fazendo exatamente o que elas foram treinadas para fazer” ela está provocando as garotas de sua classe a olhar para suas próprias vidas e perceber que elas não precisam fazer da vida do lar seu maior e único sonho. Ela está, durante toda a história, fazendo da educação uma ferramenta para que Joan, Connie, Betty, Giselle e todas aquelas mulheres segurem as rédeas de suas vidas. Para que pensem com autonomia. Justamente, o que Paulo Freire compreende como o trabalho do educador.


“A escolha é de vocês, meninas. Podem se conformar com o que as outras pessoas esperam ou…” e Betty Warren completa a frase de sua professora com “Eu sei. Sermos nós mesmas”. A educação não deve apagar o sujeito de quem ele é e lê-lo apenas como receptor de saberes. O educando deve ser visto como parte ativa do processo de aprendizado, com sua história e vivências respeitadas.




Foto: (Reprodução/Youtube/O Sorriso de Mona Lisa)

Por fim, o filme ensina que educar é uma arte que tem como objetivo libertar as pessoas de suas crenças limitantes. Espero que esse seja o futuro caminho da educação, que tenhamos educadores admiráveis como Katherine Watson e que eles tenham possibilidade de agir pensando no educando.



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