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Uma reflexão sobre o cerrado

Como o “berço das águas” se converteu em um hotspot mundial

Campo limpo - uma das fitofisionomias do Cerrado. Imagem: Daniel Arantes

O cerrado é considerado a savana mais rica e biodiversa do planeta, e é o segundo maior bioma da América do Sul, só perdendo para a Amazônia. A savana brasileira ocupa 22% da porção central do território nacional. Atualmente, o uso agrícola intensivo baseado na monocultura e na pecuária sem medidas de conservação e preservação dos recursos naturais levou a fragmentação acelerada de habitats, erosão dos solos, invasão por espécies exóticas, aumento na frequência e intensidade de queimadas e poluição de rios e aquíferos. Esse modelo de exploração econômica e a ocupação desordenada converteu o Cerrado em um dos grandes hotspots mundiais: regiões naturais com elevada biodiversidade e grande número de espécies endêmicas, porém com extensas áreas degradadas. Hoje, o nível de destruição do Cerrado pode desencadear uma crise hídrica que comprometeria inclusive a produtividade do agronegócio.


O Cerrado é um bioma formado por um conjunto de ecossistemas bem diversos como os campos, as savanas e as matas de galeria. Essa grande abundância de paisagens está ligada a diferenças nos tipos de solo e a presença de água. A grande variedade de habitats e as fronteiras com outros biomas - afinal o Cerrado faz divisa com a Floresta Amazônica, a Mata Atlântica, a Caatinga e o Pantanal - é o que propicia a imensa biodiversidade da fauna e da flora.


A vegetação costuma ser esparsa formada por árvores baixas (com exceção das formações florestais das matas ciliares), com galhos retorcidos, cascas grossas resistentes ao fogo e são bem adaptadas ao clima predominante, marcado por um inverno seco e um período de chuvas bem definido durante o verão. Uma vez que dois terços da biomassa da vegetação nativa ficam debaixo da terra, na forma de raízes profundas e ramificadas, o Cerrado costuma ser considerado uma “floresta invertida”. A manutenção da vegetação do Cerrado tem importante papel na redução do efeito estufa, pois ele acaba atuando como um importante “sumidouro” de carbono, através da retenção desse elemento em sua biomassa.


Pequi - fruta do Cerrado. Imagem: Daniel Arantes

Muitas espécies de plantas do Cerrado têm potencial uso econômico seja com o uso medicinal como a copaíba, a arnica e o barbatimão; seja como frutíferas como o pequi, baru, araticum, buriti, murici, mangaba, bacupari, cagaita e cajuzinho do cerrado. O Cerrado abriga populações tradicionais que detém profundo conhecimento do uso e interação com sua biodiversidade. São várias as etnias indígenas, quilombolas e ribeirinhos que fazem uso sustentável de espécies vegetais medicinais, alimentícias, fornecedoras de madeira e fibras. Muitas vezes em associações e cooperativas, a exploração sustentável, desses recursos naturais garante sua reprodução natural e a manutenção dos ecossistemas.


Carcará - ave de rapina do Cerrado. Imagem: Daniel Arantes

Na fauna do Cerrado encontra-se uma grande diversidade de abelhas, lagartos, peixes, anfíbios e mamíferos. Muitos animais estão diretamente envolvidos nos mecanismos de reprodução de espécies da flora, tais como polinização e dispersão de sementes. Entretanto, muitos animais do Cerrado já estão na lista de animais em risco de extinção em função de perdas de habitat, tais como o lobo guará, o tatu canastra, o tamanduá bandeira e a jaguatirica.


Conhecido como o “berço das águas” brasileiras, é no Cerrado que nascem as principais afluentes de 6 das 8 mais importantes bacias hidrográficas do país. Entre elas a Bacia do São Francisco, a Bacia Platina, e importantes afluentes da Bacia Amazônica como o Rio Xingu. Os diferentes tipos de solo, profundos e arenosos, a vegetação com raízes profundas e o relevo com frequente predomínio de formações planálticas favorecem o surgimento de diversos rios. É a partir desta importante riqueza hídrica originada no Cerrado que grande parte da energia elétrica do país é gerada. Essas características também favorecem a formação de importantes aquíferos, como por exemplo, o Bambuí, o Urucuia e o Aquífero Guarani, um dos maiores em volume e extensão e responsável pelo abastecimento de água de parte do país.


O fogo é um elemento de ocorrência natural no Cerrado mesmo antes da presença humana nas Américas. Muitas sementes de plantas do Cerrado dependem do fogo para germinar. Algumas plantas têm sua floração e frutificação favorecida pelo fogo. Com a chegada do homem e o uso do fogo inicialmente para a caça e mais tarde para a agricultura nômade e as roças de coivara, a frequência de incêndios aumentou. A partir da vinda dos portugueses e com o processo de colonização, o uso do fogo se intensificou drasticamente tornando-se o meio predominante de preparo da terra e de renovação de pastagens. Porém, apesar dos mecanismos adaptativos de algumas espécies, a frequência excessiva do uso do fogo compromete o equilíbrio ecológico com grandes prejuízos à fauna e a flora, e traz o risco de incêndios de grandes proporções que têm impacto no microclima afetando até mesmo regime hídrico regional. Áreas de mata, conhecidas com Cerradão são extremamente sensíveis ao fogo e muitas vezes são atingidas pelo uso descontrolado do fogo.

Fogo em Área de Preservação do Cerrado. Imagem: Daniel Arantes

Com solos com baixa fertilidade e ricos em alumínio tóxico, foi só na década de 70, com o pacote tecnológico da chamada “Revolução Verde”, baseada no uso intensivo de fertilizantes e de calcário, é que houve um grande avanço no cultivo de grãos em regime de monocultura, sobre o que antes era considerada “fronteira agrícola”. Desde então o Cerrado passou a ser visto como um “celeiro do Brasil” com a expansão da área cultivada com soja, cana, milho, trigo, algodão e da pecuária. Atualmente o agronegócio encabeçado por essas commodities representa aproximadamente um terço do PIB brasileiro. A riqueza gerada pelo agronegócio fomentou o surgimento de cidades e o crescimento do comércio e de indústrias. No entanto a falta conhecimento dos serviços ambientais do Cerrado, e o desenvolvimento desordenado faz com que o modelo de ocupação provoque ainda mais degradação ambiental.


No dia 11 de setembro é celebrado o Dia Nacional do Cerrado, e há mais a ser feito no sentido de sua preservação do que motivos para comemorar. Com as atenções mais voltadas para a preservação da Amazônia, o Cerrado sempre teve menos holofotes apesar da extrema importância dos seus serviços ambientais. Nos últimos anos sua taxa de desmatamento costuma ser maior do que o da Amazônia, e agora possui menos de 3% de sua área protegida legalmente. É necessária a ampliação da conscientização da população sobre importância da manutenção da biodiversidade desse bioma e de suas ameaças, bem como do seu papel na fixação de carbono e na produção recursos hídricos e energia para o país. Mas é urgente que sejam promovidas políticas públicas que favoreçam o desenvolvimento econômico em bases sustentáveis e que sejam expandidas as áreas de conservação e preservação do Cerrado.

Vereda - uma das fitofisionomias do Cerrado. Imagem: Daniel Arantes
Usina Hidrelétrica Mascarenha de Morais no Rio Grande. Imagem: Daniel Arantes
Arnica-do-cerrado - planta medicinal. Imagem: Daniel Arantes
Formação planáltica na Serra da Canastra. Imagem: Daniel Arantes
Voçoroca - erosão do solo no Cerrado. Imagem: Daniel Arantes

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Daniel Arantes Pereira, 43, é natural de Cássia, no Sul de Minas, e reside em São

João del Rei há 7 anos, onde estuda Comunicação Social - Jornalismo na UFSJ.

Cientista de alimentos e fotografo amador, é fascinado pelas tradições e

manifestações culturais do povo brasileiro. Através do Programa de Extensão “Por

Outro Olhar” encontrou oportunidade de partilhar seu ponto de vista sobre temas de

sua vivência.


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