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A presença do negro na televisão

A história da representatividade racial na televisão brasileira

Imagem: A cabana do pai Tomás, 1969. Acervo/Globo

A novela "A cabana do pai Tomás", estreada em 1969, contou como protagonista Sérgio Cardoso, um ator branco que tinha o corpo pintado, rolhas no nariz e peruca para interpretar um personagem negro: um escravo que lutava pela liberdade. O black face, nome dado a essa técnica, tem pelo menos 200 anos. Nela, atores brancos tentam reproduzir personagens negros, com uma hiper caracterização fora do real e com interpretações exageradas que os brancos consideravam como característico do povo. Uma das grandes críticas é a ridicularização em nome do entretenimento branco.


A técnica foi altamente usada fora do país, principalmente em programas que visavam o humor e na tevê aberta, mas não se restringia apenas a isso. Laurence Olivier, grande ator britânico, usou a técnica na interpretação de Otelo, de Shakespeare. O black face chegou a ser considerado como um gênero do teatro. A grande façanha, era a possibilidade da raça branca em reproduzir como entendiam ser o negro, sem dar palco para que os próprios pudessem se colocar como protagonistas.


A escassez da presença de atores pretos na televisão foi grandiosa também no Brasil. “A cabana do pai Tomás” foi inspirada no romance estadunidense da autora Harriet B. Stowe, que retratava a escravidão norte-americana. Além da técnica de black face, a novela também é marcada pela presença da atriz Ruth de Souza, a primeira mulher negra como protagonista em uma telenovela brasileira, que precisou lidar com o descontentamento de atrizes brancas pelo destaque da mesma.


Alguns anos antes, em 1951, participou da novela "Sinhá moça", onde foi indicada ao Festival de Veneza como melhor atriz. Ruth, foi a primeira atriz brasileira a ser indicada a um prêmio internacional. Participou de diversos trabalhos, na televisão, no teatro e no cinema, além de ter sido a primeira negra a atuar no Teatro Municipal. A artista faleceu em 2019, com 98 anos, mas sua trajetória ecoara eternamente.


Em pesquisas realizadas pelo Grupo de Estudos Multidisciplinar da Ação Afirmativa (GEMAA) da UERJ, de 162 novelas entre 1984 a 2014, apenas 11 possuíam pretas e pardas. Empregadas domésticas, periféricas, histéricas e referenciais sexuais, ainda são os principais papéis que elas ocupam. Por muitos anos, os negros não puderam ter palco e presença artística. Contudo, mesmo com uma mudança (ainda pequena), sua presença na televisão continua sendo um reforço de estereótipos.


Sendo diversas vezes pautados apenas para assuntos relacionados a causas raciais, quando foge disso, as interpretações ainda acabam sendo uma reprodução do que a sociedade acredita serem típicos. O cenário dos papéis interpretados por homens negros, não muda muito: malandros, criminosos, agressivos, sem protagonismo e sem sucesso profissional. Esses ainda são os maiores papéis entregues a eles. O ator Babu Santana e seus personagens, foram palco de discussões do racismo estrutural presente na sua carreira, nos últimos meses.


Não só a existência da representação deve estar em pauta, mas a maneira como a mesma é realizada. A discussão precisa ser sobre o papel que a mulher e o homem negro ocupam na mídia, quando presentes. Essa relação é um reflexo social da imagem internalizada entre a população, mas ao mesmo tempo, construtor da permanência dessa imagem. Um dos fatores mais delicados nesse processo de desconstrução é a dificuldade da luta contra problemas naturalizados e que muitas vezes, nem sequer são considerados problemas.


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Maiara Sousa, 20 anos, nasceu na capital de São Paulo. Seu amor pelo jornalismo a trouxe para a UFSJ, onde estuda atualmente. A escrita sempre foi refúgio e resistência, muitas vezes, pra si mesma. Enxerga o Por Outro Olhar como uma oportunidade para continuar buscando, e escrevendo sobre os tantos olhares que nos rodeiam.

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